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Descendo

David Burke

Traduit par : Maria da Conceição Vinciprova Fonseca

Texte original: "Coming Down "


œuvre de Antonin Hudecek

Meus sonhos são assombrados por homens maus.

           Moro e trabalho nas montanhas há quarenta anos, mas nunca é dos animais selvagens que tenho medo. Quando estou imerso na papelada do trabalho e uma batida soa à meia noite na porta do escritório do parque, sou lembrado de suas implicações no mundo real. Vou em direção à porta e um homem se inclina para dentro da saleta, joelhos trêmulos, no rosto a essência da fadiga. Seu nome é Dan. Ele veio aqui dizer que o deixou, sozinho, no topo de um monte.

           Quando falo com clientes, digo para colocarem uma moeda de vinte e cinco centavos num mapa de estrada sobre Georgian Bay e aí vão nos encontrar: Parque White Hill, um pequeno pedaço de verde protegido pelo governo, e Silver Peak fincado a mais de 1.250 metros de altura do centro. É uma longa escalada através de vales verdes, depois subindo em ziguezague por uma trilha estreita, as mãos buscando galhos que ajudem a subir flancos irregulares. No pico, nada além de pedra desbotada, no comprimento de um campo de futebol, e a visão espetacular de um lago manchado de sol.

           Mas isso você já sabe. Dan me diz que é o décimo oitavo ano que vocês sobem o White Hill – um dia com um amigo para reduzir a divisão de trabalho e tempo, e eu ouço com a máxima atenção. Mas Dan está quase hipotérmico.

           Faço chá, enrolo os pés dormentes dele com uma toalha e o cubro com uma manta. Eu poderia fazer umas ligações e perturbar o silêncio, mas Silver Peak não é lugar para ninguém agora. A tempestade veio de surpresa, acumulada em nuvens retorcidas sopradas do norte. Passei o dia no computador, observando-a se formar, preparando a previsão do tempo no quadro de giz para os campistas de amanhã. Nada além de céus limpos para o resto do fim de semana, até que uma chuva intensa desaba sobre nosso escritório, nosso parque, minha montanha.

Essa emergência tarde da noite me trouxe de volta os velhos tempos, lembrando escoteiros e passeios de canoa: as razões pelas quais eu quis este emprego. A cabeça de Dan começa a balançar, ele está dormindo, então eu corro para o depósito, encontro uma tenda de lona velha que alugamos para campistas vinte anos atrás. Vejo uns tacos de hóquei enfiados numa lata, suas lâminas gastas e finas de torneios no estacionamento. Corto com meu canivete uma parte da tenda, dou algumas voltas enrolando os tacos em cada lado da lona, faço uns furos nas pontas, passo uma corda e amarro. Pronto – a maca.

           São 4 horas da manhã quando a tempestade rola pico abaixo, escorregando pelas encostas perigosas e através da floresta, esgotada sua energia. Ouço a chuva diminuir até um ou outro gotejar nas folhas, um pingo, uma gota numa poça. Faço uma ligação, digo a meu substituto da manhã que se prepare para uma caminhada.

           Amarro minhas botas, jogo na mochila umas barras de cereal, água e um estojo de primeiros socorros e espero na varanda enquanto um veículo utilitário vem disparado para o estacionamento. O guarda-florestal Shawn salta, prende um pacote nas costas e vem caminhando pela trilha de chegada. Ele foi transferido de um dos parques maiores ao sul, e eu não gostei nunca do seu jeito de garotão surfista. Mas dizem que a floresta é o novo oceano.

           ― Porque você não chamou o socorro médico? ele pergunta.

           Eu dou de ombros, deixando que ele pense que sou um velho maluco que viveu tempo demais na floresta. Gostaria de dizer a ele como luto por auto-suficiência, que desprezo tecnologias como telefones celulares por satélite que socorrem guerreiros de fim de semana com dedões topados e indigestão, mas na verdade acho que não vale a pena. Ele é o que é. E depois do que imagino ter sido um ataque cardíaco brutal e doze horas de exposição no topo da montanha durante uma tempestade, devo admitir que não acreditava que você teria muita chance.

           ― Tudo bem, eu disse.

           Shawn aponta para a lona e os tacos de hóquei que carrego nos ombros como um andarilho, como se dissesse, essa é a sua maca? – mas meus olhos lhe dizem que é tudo de que precisamos.

           Caminhamos em silêncio entre os lagos, o céu começando a clarear e os lados de nossas calças ensopados com o mato molhado de chuva que flanqueia a trilha. O guarda-florestal Shawn vai na frente, como se seus diplomas lhe dessem o direito, enquanto Dan e eu vamos juntos, nossas botas pesadas da terra molhada. Ele se lembra de sua corrida descendo estas encostas ao anoitecer, o coração pulando, os olhos lutando contra a escuridão, procurando a trilha. Esta é a primeira vez que ele sobe o White Hill sem você.

           Não falamos sobre isso, mas sei que Dan fez tudo que pôde para salvá-lo. Sei que ele virou seu corpo quando você caiu, fechou os punhos e socou seu peito, pôs a boca contra a sua e lhe soprou a vida dele, e sei que ficou arrasado quando nada funcionou. Ele se agarrou com você ao lado do monte enquanto nuvens negras manchavam o céu, mas não teve escolha; teve que deixá-lo lá, sozinho, enfrentando a tempestade.

           Gosto de conhecer as pessoas que vão ao meu escritório para comprar passes, fazer perguntas, e contar histórias sobre o urso preto que viram cheirando frutinhas à beira da estrada. Era você ontem, escondido à sombra de um boné de baseball? Vai me desculpar, espero, por esquecer seu rosto – esta caminhada está cheia do suspense de saber quem você é, ou era – mas faço questão de deixar as pessoas em paz, se é isso o que elas parecem desejar. E seu olhar parecia focado, preso no pico.

           Caminhamos subindo a floresta. Posso vê-lo aqui, tonto após a escalada extenuante, o pico agora revelado. Seus últimos passos o deixam sem fôlego, seus dedos formigando. De repente um enorme martelo golpeia seu peito, seu coração racha, e nada funciona além da consciência da dor. Seus braços se estendem, em direção ao céu, para o pico quase ao seu alcance, mas você bate na rocha, esfola o rosto no pedregulho, e escorrega até uma pedra forrada de musgo. Aqui encontra o lugar para seu descanso, olhos virando sob as pálpebras ou abertos para a crista de um monte onde nunca chegou.

           O guarda-florestal Shawn é o primeiro a alcançá-lo. Quando consigo chegar me arrastando não há nada a ver. Ele é da nova ordem, o tipo que conhece os bosques pela sala de aula, e se veste conforme a prescrição de revistas americanas caras. Jogou de lado os ramos de pinheiro com que Dan tinha coberto seu corpo, tirou as fotos requeridas, enfiou suas pernas frias num saco de dormir que puxou até acima de seu quadril. Dispensou os rituais solenes e silenciosos que supus aconteceriam ao achá-lo, endurecido e exposto no pico rochoso.

           ― Gostaria que tivesse me consultado sobre isso, Shawn, eu digo.

           ― Estava morto, ele diz com tristeza, mas com um pouco de certeza demais para o meu gosto.

           ― Eu gostaria de ter julgado por mim mesmo.

          Shawn o enrola na lona. Pegamos cada um uma ponta da maca e o suspendemos, nossas mãos nos tacos de hóquei, os braços tensos com seu peso. Dan vai à frente para abrir caminho, arrancar algum galho. Somos macabros carregadores de mobília, cuidando para não bater a mercadoria.

           Saímos do pico branco manchado de sol e descemos pela floresta, os passos cuidadosos pela pedra e a lama, minhas mãos apertadas na curva da lâmina dos tacos de hóquei. Sinto seu ombro me cutucar quando a maca balança. Meus passos são precisos, plantados firme na terra, cada passo pesado nos aproximando do descanso.

           O que você estaria fazendo hoje, se não fosse isso? Trabalhando, provavelmente, como nós, mas qual era a sua profissão? Fosse o que fosse, imagino que teria esquecido do trabalho assim que batesse o ponto da saída, um mal necessário, suas mãos rachadas e esfoladas depois de um turno de dez horas. Na volta ao trabalho, suas pernas teriam ainda a lembrança da caminhada, cada passo catalogado nos seus joelhos inchados e coxas cansadas. Seus quadris rangeriam ao ir mancando para o trailer do almoço, onde os companheiros de trabalho pediriam detalhes. – Foi bom sair, – você diria, – mas é bom voltar.

           Já caminhei milhões de passos nesta montanha, tantos para cima e para baixo que conheço cada rocha, cada poça depois da chuva, cada galho que se estende sobre o caminho. Vejo claramente a pedra: um pequeno pedaço coberto de musgo, um lado escorregadio de lama. Quantas vezes me sentei ali para comer, mas hoje minha bota não segura, e um passo em um milhão dá errado.

      Sinto você escorregar do meu ombro. Shawn mergulha no chão. O saco de dormir se dobra e vemos, com o rosto manchado de lama, você despencar pela encosta, galhos batendo enquanto rola até parar, seguro pelos ramos da base de um pinheiro.

          Limpamos o rosto, nos ajeitamos e ouvimos Dan descendo com dificuldade. Ele ficou para trás e agora empurra um galho para o lado e pára numa clareira, olhos arregalados diante do que fizemos. Seu rosto não muda, inexpressivo de exaustão e perda. Talvez ache que foi por culpa dele que tudo isso aconteceu. Talvez ache que forçou demais seu coração engasgado, que partiu no pico.

          O guarda-florestal Shawn segura um galho quebrado na mão. – Isto, – ele diz, – isto é... –, mas as palavras não vêm. Noto o primeiro sinal de raiva esquentando sob a aba de seu chapéu. Eu gostaria de abrir o jogo, resolver isso, mas não podemos deixá-lo aqui. Descemos juntos e puxamos seu corpo, levantando-o. Nossos passos iniciais são mínimos, cautelosos, carregados com seu peso, mas agora nos sentimos mais próximos, carregando-o em nossas mãos.

          A trilha barrenta se retorce em torno de brejos e entre bétulas, através de um riacho e ao lado de um lago coberto de galhos flutuando. Estamos cansados, esgotados, uma caravana silenciosa de enlutados, e não paramos para descansar, com medo de não conseguir trazê-lo de volta, com medo da terra engoli-lo de uma vez. A trilha vai dar em um caminho de madeira, passa sobre várzeas e montes de barro, e chega a uma estrada pavimentada. Com passos solenes, paramos ao lado do escritório. Cuidadosamente, colocamos você no chão. Seguro sua cabeça em minhas mãos, baixando-a suavemente para que você descanse.

          Ficamos em pé ao seu lado, exaustos. Dan quebra nossa vigília, encosta-se na parede de tijolos com os joelhos tremendo. Prepara-se para a culpa, o telefonema para sua mulher, o funeral, as perguntas.

           O guarda-florestal Shawn limpa as mãos, enfia a camisa para dentro das calças, vira de costas, vai para a porta do escritório do parque. Ela se fecha deslizando suavemente.

          Eu me sento na calçada ao seu lado, vigio você, meus calcanhares presos no meio-fio cheio de folhas. Somos só nós, as árvores e meus pensamentos embrulhados.

          Vejo Shawn pela janela coberta de borboletas de papel feitas por crianças. Ele está no telefone, olhando para mim. Desvio os olhos. Esfrego seu ombro para confortá-lo nesse estranho lugar de descanso. Quem é você? Que rosto você merecia? Afrouxo o cordão, puxo o capuz em volta do seu pescoço, deixo o vento lhe soprar uma última vez. Passo minhas mãos sobre sua pele fria, fecho delicadamente seus olhos e ajeito o cabelo, um pouco grisalho, para trás das orelhas. Vejo algumas rugas na testa, uma barba de dois dias na face. Há um ar de surpresa em seu rosto, ou talvez seja calma.

           Não ouço a porta abrir e fechar, mas sinto Shawn em pé, diretamente sobre meu ombro.

           ― Chamei a ambulância, ele diz.

           ― Não faz sentido, eu digo, olhando seu rosto que já foi orgulhoso. Vou levá-lo. Quero continuar essa marcha fúnebre, por respeito a um homem que não conheci,

mas por quem sinto uma profunda afinidade.

           ― Já está vindo, ele diz .

           ― Eu vou levá-lo, digo, levantando-me para olhá-lo no rosto.  Não tem problema.

           ― Já chega dessa besteira de escoteiro, Shawn diz. Ele é alto, forte, jovem e muito maior que eu, a espuma da sua raiva quase a sair pela boca.  Nós violamos o corpo desse coitado.

           ― Fizemos o melhor que pudemos, digo, minha garganta apertando.

           Surpreendo-me quando bato nele, na cara, minha mão esquerda agarrada em sua camisa, um botão pulando fora. Sinto um empurrão, ouço um grunhido, e de repente meus olhos se fecham de dor, os ouvidos ensurdecidos pelo baque de um golpe.

           Curvo-me na calçada, mancha vermelha pingando pelo meu queixo e empoçando no meio-fio. Atrás de mim, o barulho das sirenes ecoa através da rocha na estrada que leva ao parque, uma ambulância passa correndo pelo veículo utilitário a caminho do feriado no paraíso. Com o Shawn parado à distância, eu me ajeito, passando a mão para estancar o sangue. Levanto-me ao seu lado, horrorizado com esse ato de desrespeito, mas com delicadeza arrumo os membros ao longo de seu corpo, e tento esticar a mão fria retorcida para dentro. Preciso torná-lo apresentável aos estranhos.

           A ambulância chega, uma banheira branca e quadrada com luzes vermelhas piscando, e pára ao lado do seu corpo. Três homens de uniforme azul saltam correndo em sua direção. Eu observo de longe.

          É hora de dizer adeus. Foi um prazer conhecê-lo.  

David Burke

David Burke was born in Kenora, Ontario, and now lives, teaches and writes in Windsor. He writes stories, novels, and screenplays, and spends his spare time playing baseball and exploring Canada's north, occasionally by car, sometimes on foot, but usually by canoe. This short story was originally published in The Puritan: Ottawa’s Literary Prose Journal in Winter 2009 and reprinted with permission from David Burke and The Puritan. He is very pleased to be translated into Portuguese, and would like to travel some day to a place where they speak that fine language.

 
Maria da Conceição Vinciprova Fonseca

Maria da Conceição Vinciprova Fonseca was born in Barra Mansa, Rio de Janeiro, Brazil. She has been teaching for over forty years. Her main interests are languages and literature, but more recently she has been doing research in translation.