O lar

Carol Shields

Traduit par : Fernanda Bacellar

Texte original: "Home "


œuvre de Catherine Dapra Zawierka

Era verão, metade de julho, metade deste século, e na cidade de Toronto cem pessoas estavam embarcando num avião.

'Por aqui', sinalizava a aeromoça de lábios torneados de batom. 'Quer um travesseiro? Um cobertor?'

A noite era agradável e eles subiam os degraus com certa leveza, até mesmo aqueles que não eram mais tão jovens. O avião estava a caminho de Londres, Inglaterra e isso estava acontecendo bem antes da era dos jatos supersônicos, um vôo transatlântico significava doze horas de viagem. Ed Dover, um homem nos seus cinqüentas anos que trabalhou para o Serviço Postal, juntou sua pensão por ter participado na Guerra para que pudesse voltar à Inglaterra para uma viagem de vinte e um dias juntamente com sua esposa Barbara. Era para o bem de Barbara que eles estavam indo: o médico tinha sugerido a viagem. Ela estava passando por uma depressão há dois anos e sempre falava da Inglaterra e da vila perto de Braintree, onde cresceu e onde seus pais ainda moravam. Em sua casa, na cidade de Toronto, ela sentava-se nos cantos escuros, chorando inconsoladamente: tinha poeira em todos os lugares e no quintal o seu canteiro onde cresceram ruibarbo e framboesa um dia, estava repleto de ervas daninhas.

Ed tinha tentado animá-la primeiramente com palavras de otimismo, depois com presentes tais como uma televisão, uma máquina de costura da Singer e caixas de bombons. Mas ela somente falava sobre o passado, do pálido crepúsculo de Essex, ou a inesquecível padaria da High Street ou as sardinhas servidas com torradas ao redor do fogo ou os tremoços coloridos e espinhosos que floresciam na porta do quintal. Se ao menos ela conseguisse cultivar tremoços em Toronto, as coisas poderiam ser melhores.

Agora Ed e Barbara estão sentados do lado da asa do avião, observando as hélices rodarem. Ela olhou para o lado de fora da janela e entrou em devaneios. Parecia que o céu em que atravessavam estava deslizando ao redor da terra empurrado pelo por do sol. Ela pensou na porta da casa de seus pais, no portão pintado de verde e nos postes de pedra que seu pai limpava nas manhãs de sábado.

Então, numa fração de segundos e por razão nenhuma, o pensamento de sua casa na Inglaterra ligou-­se perfeitamente à imagem de sua própria casa, sua e de Ed, na Rua Keele em Toronto, quão confortável ela ficara com seu carpete novo no inverno e os reparos que o Ed tinha feito na cozinha, e começou a pensar porque estava levando uma vida tão triste lá. Sentiu-se como se uma veia se rompesse em seu corpo, uma onda de equilíbrio tinha se instalado, foi quando a aeromoça se aproximou trazendo a bandeja com o jantar. Barbara sorriu e disse a ela, 'Parece um banquete para um rei'.

Ed mergulhou em seu jantar com grande apetite. Era pato ao molho de laranja, apesar de não ser um homem de paladar requintado, sempre gostava de apreciar pratos novos. Experimentou um pedaço, depois outro, tinha um sabor adocicado, meio queimado, mas agradável que o levou a se lembrar sem motivo algum das sensações de agudez e estranhamento do desejo sexual, que aparecem espontaneamente nos momentos mais estranhos. Tais momentos como quando fazia a barba no banheiro ou quando corria na Avenida Eglinton de manhã para pegar o ônibus. Ficou desconcertado com a sensação de prazer que sentia como uma explosão de fogos de artifício, como uma fonte luminosa que lançava faíscas no céu de minuto em minuto até ao gramado cheio de orvalho. Lembrou-se, também, de algo quase que esquecido: o cheiro da pele de Barbara ao sair do banho. Sentiu que os últimos dois anos tinham se arrastado vagarosamente como o tic-tac do relógio, refletindo suas angústias que deveriam ser revistas em algum momento futuro de sua vida. Suas pernas estavam soltas e leves como as de um menino. Com o tempo o valor de sua pensão corroeu-se pela inflação, mas tinha sido bem empregado em troca dos momentos de leveza de corpo que vivenciava. Deixe-me senti­-los, deixe-me senti-los pelo resto de minha vida, disse ele a si mesmo.

Ao lado de Ed e Barbara sentava um fazendeiro aposentado de Rivers, Manitoba, comendo seu pato vorazmente. Bateu nos joelhos de sua esposa dizendo com voz de tenor, 'Que delícia, que delícia', referindo-se ao prato exótico e também ao surpreendente prazer de estar voando primero sobre o Quebec e despois um imenso oceano aos seus pés às vinte e uma horas numa agradável noite de verão.

Sua esposa não era uma mulher que apreciava ser chamada por batidas de joelhos, mas estava muito ocupada em pensar em rezar para Deus, Jesus e sua misericórdia infinita e a contemplar o azul do céu do norte que coloria de desbotado vermelho salmão até violeta, que não retrucou a ofensa. Mandava em seu marido por quarenta anos, surgiu um sorriso novo e maroto em seu rosto, daí estalou os dedos e ficou a contemplar as rugas de suas mãos. Meu querido Jesus, Nosso Salvador - essas palavras estalaram como pipoca em sua cabeça.

Não muito longe dela sentava um jornalista, um homem com cara de toupeira e costas largas, que era especialista em escrever sobre a vida de pessoas famosas. Ele percorria o mundo, ligando, escrevendo, marcando entrevistas e encontros em hotéis ou lugares privados com eles, objetivando descobrir suas fraquezas, suas tragédias, seus medos obscuros para que ele pudesse tratar deles - e de si mesmo lavando-os com lágrimas de piedade. Era trabalho difícil o de tentar fazer contato com os famosos por causa de seus afazeres, mas sempre após uma entrevista, ele persuadia a si mesmo dizendo que era melhor do que ser um mero desconhecido. No Canadá, ele entrevistou o primeiro ministro de uma grande província da região leste, um homem que tinha um grande dente frontal escuro, um tremor facial e um genro que estava prestes a ir para cadeia por envolvimento com drogas. Se o jornalista estivesse indo agora para seu apartamento em Notting RiU Gate; dentro de vinte e quatro horas ele estaria examinando sua coleção de minúsculos animais de cristais e pensando que apesar do seu relativo anonimato, da sua relativa solidão, da sua renda relativamente pequena e do grau de reconhecimento relativamente pequeno que tinha conquistado- apesar de tudo isso, tinha preservado sua intimidade dos invasores. E o que isso significava? Ele perguntou a si mesmo com a mesma intensidade que ele perguntava aos famosos. Significava felicidade, ou algo semelhante à felicidade.

Próximo a ele estava sentado uma professora de inglês de ensino médio, uma mulher de uns quarenta anos, robusta que vestia um terninho de viagem de xantungue grosso.

Quando chegasse na Inglaterra, tinha em mente pegar um trem para o Lake District e de lá para Dove Cottage, onde assinaria seu nome no livro de visitas assim como tantas outras professoras de ensino médio já o tinham feito. Quando ela retomasse para Toronto, cidade na qual nunca tinha se sentido em casa, apesar de ter nascido lá, ao retomar em setembro para as aulas teria que enfrentar um grupo de adolescentes mal-criados que nunca entenderiam o que "O Prelúdio" significava. Para ela seria confortante pensar que deixou seu nome escrito num grande livro sobre uma mesa de carvalho na casa onde William Wordsworth tinha vivido. De repente, percebeu que o mundo era acessível; os oceanos, os continentes e os séculos podiam ser rapidamente ultrapassados.  Resgatou de sua infância as coisas que realmente acreditava ser transparentes - vidro, ar, chuva, até mesmo o entre linhas da poesia. O ambiente no avião, o repique claro da camada de ozônio, pareciam ser seus verdadeiros elementos, rarefeito, delicado e descoberto. Pensando nisso, colocou as mãos sobre a cabeça sentindo o prazer de tocar a permanente em seus cabelos, um sentir que mostrou a ela um caminho seguro para tudo que quisesse pensar ou imaginar.

Todos estavam felizes, Ed e Barbara Dover, o fazendeiro beijoqueiro e sua beata esposa, o jornalista inglês, e a professora de Toronto - mas eles não eram os únicos que se sentiam assim. Devido a uma coincidência extraordinária (ou algo parecido com uma distribuição cósmica), cada passageiro daquele vôo com destino a Londres naquela noite se encontrava por um momento repleto de uma felicidade infinita.

Talvez fosse o oxigênio da cabine climatizada, ou o pato com molho de laranja, ou ainda o rebolado delicado da aeromoça indo e vindo com a garrafa de café, ou talvez, a trepidação do avião, ou algum pensamento aleatório que se arrastou da escuridão da aeronave e abasteceu com a proximidade de estranhos - seja o que fosse, cada um dos cem passageiros - de um a um, da fileira um a vinte-- cinco, como luzinhas a acender – vivenciavam uma sensação de alegria intensa e simultânea. Naquele momento, eles eram nadadores de uma única onda, levados para cima por uma infecção ou clarividência ou uma percepção oblíqua causada pela altitude.

Até mesmo o piloto, o Capitão Walter Woodlock um homem portador de úlceras estomacais das mais doloridas e crônicas, fechou seus olhos por um breve momento enquanto sobrevoavam Greenland e perdeu-se em seu sonho. Não levou mais do que trinta segundos, mas logo depois sentiu uma paz de espírito que ele havia esquecido. Mergulhado na sua dimensão aérea, parecia mais uma rosa viçosa pelo orvalho ou como um peixe sorridente preparado num prato ou como um pedaço grande da lua do Ártico inclinada tentando alcançar gentilmente as altas ondas salgadas. Sentiu que poderia ficar mergulhado para sempre nessa volta à realidade, como o céu do mundo era grande e azul naquele momento.

A intensidade e o calor dessa felicidade coletiva produziram algum tipo de gás ou éter ou reação de alquimia - é difícil dizer ao certo - mas por um momento, talvez dois, as paredes, a fuselagem inteira, as asas, a parte traseira da aeronave tomaram-se translúcidas. As camadas de aço, os rebites, as braçadeiras e o próprio esqueleto viraram primeiramente a cor roxa, dai rosa perolado, e finalmente, metamorfoseou-se em uma luz cristalina incandescente.

Essa transformação luminosa, não é necessário dizer, passou despercebida pelos tripulantes da aeronave devido todos estarem tão ocupados com sua própria visão de transcendência.

Mas havia uma testemunha, ou melhor, tomou-se uma: um menino de doze anos de idade que estava de pé numa pedra da praia de Greenland naquela noite de verão. Seu nome era Piers e era filho de um padre luterano holandês que estava morando na pequena vila de Greenland por um período de dois anos. Sua mãe tinha ficado em Copenhagen, tinha se apaixonado por um farmacêutico de manipulação e nada foi explicado adequadamente para o menino - talvez fosse por isso que ele estivesse de pé, sozinho e desesperadamente confuso na praia deserta tão tarde da noite.

Certamente, era muito tarde em Greenland, no meio de verão, o céu mantém algumas de suas cores por volta das vinte e três horas e até mesmo mantém traços de luminosidade, do mesmo tipo de luz que permite observar as impurezas suspensas do vinho em um copo. Primeiro, o menino ouviu o barulho dos motores, franzindo a testa viu o avião no céu, o casco brilhando e asas elegantes de vidro e as hélices girando a todo vapor. Ele estava muito estonteado para acenar, o que normalmente fazia quando via um avião voando sobre a sua cabeça. O que seria aquilo? Perguntou a si mesmo. Não sabia quase nada sobre ficção científica, gênero desprezado pelo seu pai e pela igreja na qual cresceu rigidamente evitando figuras angelicais ou outras formas humanas. Um truque da atmosfera? - Já tinha visto a aurora boreal e sabia que isso era diferente. A palavra "fenômeno" ainda não fazia parte de seu vocabulário, mas quando entrou alguns anos mais tarde, caiu como se fosse uma fruta madura em sua consciência, acreditava que tinha alguma coisa a ver como o espetáculo daquela noite.

Tais momentos de intoxicação mental, ao certo, tomaram se rapidamente segredos muito pesados ­isso é verdadeiro para crianças - então não é surpresa dizer que ele nunca contou a ninguém sobre o que viu.

Como seu pai, tomou-se um homem de Deus, assim como outros de sua geração usava o título com ironia. Primeiramente, estudou em Leiden, onde perdeu sua crença na Santíssima Trindade. Depois recebeu bolsa de estudos para o Union Seminário Teológico de Nova Iorque, onde sua descrença aumentou assim como sua reputação em se tornar um teólogo promissor. Antes mesmo de ir para a faculdade; escreveu um livro e começou a proferir palestras, e quase aos quarenta anos, apaixonou-se por uma mulher inteligente e nervosa que era estudiosa da História Medieval.

Uma noite, quando estavam abraçados, contou-lhe que as mulheres na Idade Média testavam a pureza da seda de suas camisolas, passando as por dentro de um anel de ouro.

Chegou a conclusão, que era a mesma maneira que usava para testar sua crença em Deus- diferenciando-se, que ao invés de determinar- a- pureza de sua fé, mostrava sua relutância, teimosia e absurdidade. Apesar de todas as circunstâncias, havia dias em que conseguia avaliar o mínimo que tinha pelo anel; surpreendentemente algo fez com que sentisse que fosse desmaiar trazendo a sua mente a imagem de avião translúcido suspenso no ar da época de sua infância. Pareceu-lhe que toda a sua vida tinha se resumido numa viagem centrífuga ao redor daquela imagem - o único sinal de mistério que tinha vivenciado.

Um dia quando estava abraçando sua amada com as pernas e sua mente ardendo de prazer, contou-­lhe o que ele tinha tido o privilégio de ver. Ela se afastou dele, com olhos frios e boca aberta, sugerindo que ele procurasse um psiquiatra.

Depois desse dia, sua imagem foi diminuindo dia a dia aos olhos dele, e finalmente, um ano mais tarde, um amigo contou-lhe que ela tinha se casado. O mesmo amigo sugeriu-lhe tirar umas férias.

Era verão, a cidade estava sufocante e já fazia algum tempo que não conseguia passar nada pelo seu anel. Pensou em visitar Greenland, mas a escala de vôo era extremamente complicada e o custo proibitivo; somente os ricaços poderiam pagar uma viagem para lá. Uma tarde, ao perceber estava numa agência de viagens do lado de uma bela moça que estava comprando um pacote para Acapulco.

“Um lugar fantástico" ela disse. Sol magnífico, praias belíssimas e vegetação por todos os lados. Antes todas as vezes que o mundo novo do prazer batia a sua porta, ele recusava. Mas, agora acabava de comprar as passagens com embarque na manhã seguinte.

No aeroporto de Acapulco, uma duplicidade crua perpetuava no ar adocicado - concorda Josephe também, uma jovem mulher que trabalha como inspetora de bagagem atrás do balcão da alfândega. Todos os dias, milhares de turistas chegam. Do seu lugar, ela pode vê-los desembarcando e se apressando para atravessar às portas de vidro, carregando com eles o logo conspiratório de turistas a vista. Suas malas, raquetes de tênis, sua palidez de Nova Iorque dão ao olhar de Josephe um ar de tristeza. Percebeu algo atemorizante que um dia ao desembarcar 109 turistas de Nova Iorque, todos sem exceção usavam blue jeans.

Estava acostumada a ver pessoas trajando blue jeans, mas tal unanimidade estatística a deixou extremamente nervosa, pois parecia que um exército cômico acabava de chegar. Até mesmo o último passageiro a pisar no chão, um homem que parecia estar perdidamente apaixonado em seus próprios pensamentos, trajava o onipresente blue jeans.

Desejava encontrar alguma exceção - uma mulher com vestido florido ou um homem antiquado o suficiente para acreditar que o vestuário certo para uma área de lazer seria bermudas brancas. Sentiu-se chocada por tal totalidade, mas esse sentimento se esvai ao balançar a cabeça com ar-de-descrença;-depois -­encanto, satisfação e finalmente, temor.

Tenta manter em sua mente, o olhar do último passageiro, aquele que lacrou o efeito da irrealidade, mas os outros passageiros se colocam a volta do balcão ameaçando momentaneamente suas pequenas descobertas e questionamentos, seu poder transitório.

Nunca chega o fim; os turistas agem como sempre, correndo para o sol. Eles se sentem mais leves do que o ar, mais livres do que os pássaros, mergulhando em suas concepções de paraíso, apesar dos milhões de filamentos invisíveis e inconscientes de ligação, triviais ou profundos, que os ligam uns aos outros e ao pequeno planeta que eles conhecem como o lar.

 

Carol Shields

Carol Shields is an internationally known author who won many awards for her novels and short stories. Larry's Party won the Orange Prize and was shortlisted for the Giller Prize. The Stone Diaries won the Pulitzer Prize, the Governor General’s Award and the National Book Critics Circle Award, and was shortlisted for the Booker Prize. Ms. Shields also wrote twelve other novels and short-story collections, three books of poetry, numerous plays and a biography of Jane Austen. Her last novel, Unless, reawakened the voice of Reta winters, from her story “The Scarf,” included in Dressing Up for the Carnival.

Excerpted from Various Miracles. Copyright © 1985 Carol Shields Literary Trust. Published by Random House Canada, a division of Canada Limited. Reproduced by arrangement with the Publisher. All rights reserved. 

Fernanda Bacellar
Fernanda Bacellar is a professor at ESALQ of the University of São Paulo and at the Methodist University of Piracicaba. She has experience in Linguistics, with emphasis on Translation and Terminology and focuses mainly on English Teaching, Literature and Translation, Agricultural Sciences and Agronomics.