Minha mãe e os livros

Sidonie-Gabrielle Colette

Traduzido por: Jaqueline Sinderski Bigaton


Obra de arte Braydon Brommit

A lâmpada, pela abertura superior do abajur, clareava uma parede canelada de lombadas de livros, reunidos. A parede oposta era amarela, do amarelo sujo das lombadas de livros em brochura, lidos, relidos, esfarrapados. Alguns "traduzidos do inglês" – um franco e vinte e cinco – ressaltavam em vermelho a prateleira de baixo.

           À meia-altura, Musset, Voltaire, e os Quatro Evangelhos brilhavam sob as folhas de pele de carneiro. Littré, Larousse e Becquerel projetavam suas costas de tartarugas negras. D'Orbigny, despedaçado pelo culto irreverente de quatro crianças, desfolhava suas páginas adornadas de dálias, de papagaios, de medusas de tentáculos rosas e de ornitorrincos.

           Camille Flammarion, azul, estrelado em ouro, continha os planetas amarelos, as crateras frias e porosas da lua, Saturno que rola, pérola iridescente, livre em seu anel...

           Duas sólidas capas cor de gleba ligavam o Élisée Reclus.  Musset, Voltaire, jaspeados, Balzac negro e Shakespeare oliva...

           Eu só tinha que fechar os olhos para rever, após tantos anos, essa peça construída de livros. Antigamente, eu também os distinguia no escuro. Eu não precisava de lâmpada para escolher algum deles à noite, era-me suficiente o dedilhar ao longo das prateleiras. Destruídos, perdidos e roubados, eu os calculo ainda. Quase todos tinham me visto nascer.

           Houve um tempo no qual, antes de saber ler, eu me encolhia entre dois tomos do Larousse como um cachorro em seu ninho. Labiche e Daudet se insinuaram, cedo, na minha feliz infância, mestres condescendentes que jogam com um familiar aprendiz. Mérimée veio ao mesmo tempo, sedutor e difícil, e às vezes ofuscou meus oito anos com uma luz ininteligível. Os Miseráveis também, sim, os Miseráveis – apesar de Gavroche; mas eu falo de uma paixão sensata que conheceu a frieza e os longos afastamentos. Não havia amor entre Dumas e eu, exceto o Colar da Rainha que ardeu, algumas noites, nos meus sonhos, no pescoço condenado de Jeanne de la Motte. Nem o entusiasmo fraterno, nem o espanto desaprovador de meus pais conseguiram que eu tomasse interesse pelos Mosqueteiros...

           Sobre os livros infantis, nunca tive interesse. Apaixonada pela Princesa em sua carruagem, sonhadora sob um tão longo quarto crescente de lua, e pela Bela que dormia no bosque, entre suas páginas, prostrada; apaixonada pelo Senhor Gato de botas de funil, eu tentava reencontrar no texto de Perrault a escuridão de veludo, o brilho da prata, as ruínas, os cavaleiros, os cavalos de pés pequenos de Gustave Doré; ao final de duas páginas eu retornava, desapontada, à Doré. Eu só havia lido as aventuras da Cerva, da Bela, nas frescas imagens de Walter Crane. As grandes letras do texto corriam de um quadro a outro como uma rede de tule que carrega os medalhões espaçados de uma renda. Nem uma palavra cruzou o limite que eu lhes impunha. Para onde se vão, mais tarde, esta vontade enorme de ignorar, esta força tranquila empregada para banir e para espalhar?...

           Livros, livros, livros... Não que eu lesse muito. Eu lia e relia os mesmos. Mas todos me eram necessários. Sua presença, seu cheiro, as letras de seus títulos e a textura de seu couro... Os mais herméticos não me eram os mais caros? Aí está, há muito tempo eu já havia esquecido o autor de uma Enciclopédia vestida de vermelho, mas as referências alfabéticas indicadas em cada tomo compõem indelevelmente uma palavra mágica: Aphbicécladiggalhymaroidphorebstevanzy. Como eu amei este Guizot, em verde e ouro aparado, nunca aberto! E esta Voyage d’Anarcharsis intocado! Se a Histoire du Consulat et de l’Empire fracassou um dia sobre o cais, eu aposto que uma placa menciona orgulhosamente sua “condição de novo”...

           Os dezoito volumes de Saint-Simon se revezavam na cabeceira de minha mãe à noite; ela encontrava neles os prazeres renascentes e se surpreendia que eu, com oito anos, não os compartilhasse todos.

           – Por que você não lê Saint-Simon? ela me perguntava. É curioso ver o tempo que leva para as crianças adotarem os bons livros!

           Belos livros que eu lia, belos livros que eu não lia, revestimento quente das paredes de minha residência natal, tapeçaria na qual meus olhos iniciados lisonjeavam os matizes escondidos... Eu conheci ali, muito antes da idade do amor, que o amor é complicado e tirânico e mesmo incômodo, já que minha mãe contestava-lhe seu lugar.

           – É bastante constrangedor, tanto amor nestes livros, ela dizia. Minha pobre Minet-Chéri, as pessoas têm outros gatos para espantar na vida. Todos esses apaixonados que você vê nesses livros, eles nunca têm, então, nem filhos para educar, nem jardim para cuidar? Minet-Chéri, eu a faço juíza: vocês já me escutaram, você e seus irmãos, insistir no amor como essas pessoas fazem nos livros? E, entretanto, eu poderia ter voz no capítulo, eu acho; eu tive dois maridos e quatro filhos!

           Os tentadores abismos do medo, abertos em numerosos romances, fervilhavam suficientemente, se eu me inclinasse, os fantasmas classicamente brancos, as bruxas, as sombras, os animais maléficos, mas este além não se agarrava, para subir até mim, em minhas tranças penduradas, contidos como estavam por algumas palavras conjurantes...

           – Você leu esta história de fantasma, Minet-Chéri? Como é bonita, não é mesmo? Tem alguma coisa mais bonita que esta página na qual o fantasma caminha à meia-noite, sob a lua, no cemitério? Quando o autor diz, você sabe, que a luz da lua passava através do fantasma e que ele não fazia sombra sobre a grama... Deve ser lindíssimo, um fantasma. Gostaria muito de ver um, eu chamaria você. Infelizmente eles não existem. Se eu pudesse me tornar fantasma depois da minha vida, não perderia isso, para seu prazer e pelo meu. Você leu também essa história tola de um morto que se vinga? Se vingar, eu pergunto a você! Não valeria a pena morrer, se depois a gente não se tornasse mais sensato que antes. Os mortos, vai, são uma vizinhança muito tranquila. Eu não tenho atravancamentos com meus vizinhos vivos, eu me encarrego de não tê-los nunca com meus vizinhos mortos!

           Eu não sei qual frieza literária, sã em tudo, resguardou-me do delírio romanesco, e me carregou um pouco mais tarde, quando eu resistia a tais livros cujo poder provado parecia infalível – a pensar que eu fui nada mais que uma vítima intoxicada. Será que também nisso eu imitava minha mãe, em que uma candura particular levava a negar o mal, isso enquanto sua curiosidade o buscava e o contemplava, confuso com o bem, com um olhar maravilhado?

           – Este aqui ? Este aqui não é um livro ruim, Minet-Chéri, ela me dizia. Sim, eu bem sei, tem esta cena, este capítulo... Mas é um romance. Eles ficam sem histórias, você compreende, os escritores, com o tempo. Você poderia esperar um ano ou dois, antes de lê-lo... O que você quer! Vire-se aí, Minet-Chéri. Você é inteligente o suficiente para manter para si mesma aquilo que você compreende demais... E talvez não existam livros ruins...

           Entretanto, existiam aqueles que meu pai trancava em sua escrivaninha em madeira de cedro. Mas ele trancava, sobretudo, o nome do autor.

           – Eu não vejo utilidade que as crianças leiam Zola!

           Zola o entediava, e antes de buscar nele uma razão de nos permiti-lo ou de defendê-lo, ele colocava no Índice um Zola integral, massivo, acrescido periodicamente de aluviões amarelos.

           – Mamãe, por que eu não posso ler Zola?

           Os olhos cinzentos, tão inábeis em mentir, mostravam-me sua perplexidade:

           – Eu prefiro, evidentemente, que você não leia certos Zola...

           – Então, você me dá aqueles que não são os “certos”?

           Ela me dava O crime do padre Mouret e o Doutor Pascal, e Germinal. Mas eu quis, magoada, que os trancassem, por desconfiança de mim, a um canto dessa casa onde as portas batiam, onde os gatos entravam à noite, onde a adega e o pote de manteiga se esvaziavam misteriosamente – eu quis os outros. Eu os tive. Se ela os guarda, então, com vergonha, uma moça de quatorze anos não tem nem pena nem mérito ao enganar os pais de coração puro. Eu ia para o jardim, com meu primeiro livro roubado. Uma história suficientemente adocicada o enchia de hereditariedade, meu Deus, como muitos outros Zola. A prima robusta e bondosa cedia seu primo amado a uma amiga má, e tudo se passaria como em Ohnet, acredite em mim, se a esposa doente não tivesse conhecido a alegria de trazer um filho ao mundo.  Ela lhe daria à luz subitamente, com um luxo brusco e repleto de detalhes, uma minúcia anatômica, uma complacência na cor, no cheiro, na atitude, no grito, onde eu não reconheci nada da minha tranquila competência de moça do campo. Eu me senti crédula, assustada, ameaçada no meu destino de pequena fêmea... Amores de animais pastando, gatos lambendo gatas como felinas, sua presa, precisão camponesa, quase austera, fazendeiras falando de sua novilha virgem ou de sua filha angustiada para ser mãe, eu os chamava em meu socorro. Mas eu chamava, sobretudo, a voz conjurante:

           – Quando eu a coloquei no mundo, você, a última, Minet-Chéri, eu sofri três dias e duas noites. Enquanto eu a carregava, estava grande como uma torre. Três dias, isso parece muito... Os animais nos fazem afronta, a nós, outras fêmeas que não sabemos mais parir alegremente. Mas eu nunca me arrependi da minha dor: diz-se que as crianças, carregadas tão alto como você e lentas a descer para a luz, são sempre as crianças mais queridas, porque elas quiseram ficar bem perto do coração de sua mãe, e só a deixaram com arrependimento...

           Em vão eu queria que as doces palavras do exorcismo, recolhidas às pressas, cantassem em meus ouvidos: um zumbido prateado me ensurdecia. Outras palavras, sob meus olhos, pintavam a carne rasgada, o excremento, o sangue contaminado... Eu consegui levantar a cabeça e vi apenas um jardim azulado, com paredes cor de fumaça que vacilavam estranhamente sob um céu que se tornou amarelo... A grama me recebeu, estendida e mole como uma dessas pequenas lebres que os caçadores carregavam, recém-mortas, para a cozinha.

           Quando recuperei a consciência, o céu tinha recuperado seu azul, e eu respirava, o nariz repleto de água de colônia, aos pés de minha mãe.

           – Você está melhor, Minet-Chéri?

           – Sim... Eu não sei o que eu tive...

           Os olhos cinzentos, gradualmente tranquilizados, pregavam-se aos meus.

           – Eu já sei, sim... Um toque do dedo-de-Deus na cabeça, bem aplicado...

           Eu continuava pálida e desolada, e minha mãe se enganou:

           – Deixe estar, deixe estar... Não é tão horrível, vai, está longe de ser tão horrível, a chegada de uma criança. E é bem mais bonito na realidade. A dor que se sente se esquece bem rápido, você verá!... A prova é que todas as mulheres a esquecem, e o que existe são apenas homens – é isso que lhe mostrava, vejamos, esse Zola? – que fazem histórias...

Sidonie-Gabrielle Colette

Sidonie-Gabrielle Colette, nascida em 1873, foi uma escritora francesa, cuja obra pode ser classificada como semi-autobriográfica – uma vez que provém da união da ficção com fatos reais e memórias de vida. Colette foi membro da Académie Royale de Langue et de Littérature Françaises de Belgique e da Académie Goncourt.

Jaqueline Sinderski Bigaton

Jaqueline Sinderski Bigaton é graduanda do curso Letras – Língua Francesa e Literaturas de Língua Francesa, na Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil).