A imagem da alma perdida

Hector Hugh Munro

Traduzido por: Aline Pereira de Freitas


Obra de arte Carel Fabritius

Havia uma série de figuras esculpidas em pedra posicionadas alternadamente ao longo dos parapeitos da antiga catedral. Algumas representavam anjos, outras representavam reis e bispos, e quase todas exibiam uma postura de devota exaltação e serenidade. No entanto, uma figura abaixo no lado norte e gélido do edifício, não tinha nem coroa, mitra ou auréola, e seu semblante era severo, amargurado e abatido.                       

           — Deve ser um demônio — afirmaram os gordos pombos azuis que se empoleiravam e tomavam banho de sol durante o dia todo nas bordas do parapeito. Mas a velha gralha do campanário, especialista em arquitetura eclesiástica, disse que se tratava de uma alma perdida. E o assunto morreu ali.

           Em um dia de outono, esvoaçou sobre o telhado da catedral um pássaro esguio e de voz suave que tinha se afastado dos campos áridos e das sebes desbastadas à procura de um poleiro para o inverno. Tentou descansar as patas cansadas sob a sombra de uma grande asa de anjo ou se aninhar nas dobras esculpidas de um manto real, mas os pombos corpulentos o empurravam de onde quer que se acomodasse, e os pardais barulhentos o expulsavam dos parapeitos. 

           — Nenhum pássaro respeitável canta com tanta emoção — piavam uns com os outros. E o pássaro errante teve de sair dali.

           Apenas a efígie da Alma Perdida oferecia refúgio. Os pombos não consideravam seguro pousar em uma saliência tão inclinada para fora da perpendicular e, além disso, sombrosa. A figura não tinha as mãos postas em atitude devota dos outros dignitários esculpidos, mas tinha os braços cruzados, com ar de contrariedade, e o ângulo dos braços formavam um local de repouso aconchegante para o pequeno pássaro. Todas as noites ele se infiltrava confiante naquele canto, se encostava ao peito de pedra da imagem, e os olhos sombrios desta pareciam velar seu sono. O pássaro solitário começou a amar seu solitário protetor. Durante o dia o pássaro se sentava ocasionalmente em alguma calha ou outra base e trinava sua mais doce canção em gratidão ao seu abrigo noturno. E pode ter sido obra do vento e do tempo, ou alguma outra influência, mas o rosto abatido e selvagem da imagem parecia aos poucos perder um pouco da sua severidade e tristeza. Todos os dias, no decorrer das longas horas monótonas, o canto do pequeno hóspede surgia em trechos para o vigilante solitário. À noite, quando tocava o sino da igreja e os grandes morcegos cinzentos escapavam de seus esconderijos no telhado do campanário, o pássaro de olhos reluzentes retornava, chilreava algumas notas sonolentas e se aninhava nos braços que o esperavam. Aqueles foram dias felizes para a Imagem Sombria. Apenas o grande sino da catedral tocava diariamente a sua mensagem zombeteira: “Depois da alegria… tristeza”.

 

As pessoas na casa do sacristão notaram um passarinho pardo que voava sobre os pátios da catedral e admiraram seu belo canto.

           — É uma pena — diziam eles —, que todo aquele chilreio se desperdice e se perca tão longe da escuta sobre o parapeito. Eram pobres, mas compreendiam os princípios da política econômica. Assim, capturaram o pássaro e o colocaram dentro de uma gaiolinha de vime à porta da casa.

           Naquela noite, a pequena ave canora não apareceu ao seu habitual reduto e a Imagem Sombria sentiu mais do que nunca o amargor da solidão. Talvez o seu amiguinho tivesse sido morto por um gato vagante ou ferido por uma pedra. Talvez… talvez tivesse voado para outro lugar qualquer. Mas quando surgiu a manhã, no meio do barulho e agitação do mundo da catedral, sobrevoou sobre a imagem uma vaga mensagem de pesar do prisioneiro da gaiola de vime lá de baixo. E todos os dias, ao meio-dia, quando os pombos gordos se entorpeciam no silêncio depois do almoço e os pardais se lavavam nas poças da rua, o canto do passarinho chegava até os parapeitos — um canto de ânsia, saudade e desespero, um clamor que nunca poderia ser respondido. Os pombos observaram, entre as refeições, que a figura estava mais debruçada do que antes.

           Um dia, nenhum canto soou da pequena gaiola de vime. Foi o dia mais frio do inverno. Os pombos e os pardais sobre o telhado da catedral procuravam ansiosos por todos os lados as migalhas de comida das quais eram dependentes no mau tempo.

           — As pessoas da casa jogaram alguma coisa sobre a pilha de lixo? — perguntou um pombo a outro que espreitava sobre a borda do parapeito norte.

           — Só um passarinho morto — foi a resposta.

           À noite se ouviu um estalido no telhado da catedral e um barulho de queda de alvenaria. A gralha do campanário disse que a geada estava afetando a estrutura e como já tinha experienciado muitas geadas, devia ter sido esse o motivo do ocorrido. De manhã se via que a Imagem da Alma Perdida tinha caído da cornija e agora se assentava em um monte de caco sobre a lixeira em frente à casa do sacristão.

           — Até melhor — arrulhavam os pombos gordos, depois de analisarem o caso por alguns minutos —, agora vamos ter um belo anjo erguido lá. Com certeza vão colocar um anjo lá.

           “Depois da alegria … tristeza” — ressoou o grande sino.

Hector Hugh Munro

Hector Hugh Munro (18 December 1870 – 13 November 1916), better known by the pen name Saki, and also frequently as H. H. Munro, was a British writer whose witty, mischievous and sometimes macabre stories satirized Edwardian society and culture.

Aline Pereira de Freitas

Aline Pereira de Freitas is a native Brazilian Portuguese speaker, proficient in English and Spanish, with a bachelor's degree in English-Portuguese Translation (Sao Paulo, Brazil). She has worked as a professional translator since 2008 and currently lives in Toronto, Canada.