Josete se matou

Sonia Coutinho

Translation text: "Josette Killed Herself "


Artwork by Dare Birsa

VOU AO ARMÁRIO DA COZINHA, me sirvo de outro uísque. Ponho um disco de Billie Holiday na radiola, me estendo no sofá. E acendo um cigarro mentolado. Estou muito cansado. Hoje, fiquei na redação até quase meia-noite, embora seja domingo. Mas, perto da hora de fechar o jornal, me caiu nas mãos uma matéria muito malfeita, de umas 12 laudas. Seqüestraram e mataram cinco pessoas, na Pavuna e em Nova Iguaçu. Um casal foi queimado dentro de um Opala branco — algemados. As fotos davam vontade de vomitar. Um sujeito, Carlinhos Neguinho, sobreviveu à matança e, como um primo seu tinha morrido, resolver contar tudo.

Tive de refazer a matéria, numa máquina velha. A cabeça do carrinho caiu e as teclas se soltavam, enquanto o chefe de redação me olhava furioso — eu estava atrasando o fechamento. Suei o corpo inteiro e, na hora de sair, precisava encontrar alguém. Telefonei para Carla, mas ela não topou, acabei vindo direto para casa.

Para este apartamento deserto e sujo onde, há uns 15 minutos, o telefone tocou. Era Cigarrinho, contínuo lá da redação, para me dar a notícia — a ruiva Josete tinha acabado de morrer. Há uma semana agonizava na UTI do Hospital Miguel Couto, depois de uma tentativa de suicídio com Diempax e gás. Tomou as pílulas e enfiou a cabeça no forno, com o bico do fogão aberto, em seu solitário apartamentinho no Posto Seis.

Me estiro agora no sofá, apóio a dolorida cabeça numa almofada — e vejo, de relance, várias imagens de Josete. Seus jeans desbotados, os coletes indianos, a bolsa de camurça com franjas. As histórias que contava ao voltar com alguma reportagem quente. Como segurava um cigarro entre os dedos, caminhando de um lado para outro no salão enfumaçado da redação, olhar distante, o bonito rosto angustiado. E um esguio corpo intato de mulher de 30 anos, jeitinho atraente de puta.

Circulam mil casos a seu respeito, a redação inteira, dizem, foi para a cama com Josete, nem sempre ela sabia com quem tinha trepado na véspera. “Será que foi com o Cláudio, a noite passada?”, teria perguntado, um dia. “Eu estava tão bêbada! Espero que não tenha sido o Cláudio, sinto nojo dele.”

Morta, vai emergir o lado mais triste de sua história. Que tinha perdido os pais ainda menina, naquela cidadezinha do interior onde nasceu. Ficou com uma pensão vitalícia, uma sensação permanente de irremediável solidão e a impressão de que seu pai era o assassino de sua mãe — foi ele quem a convidou para aquela viagem e o avião caiu.

Jornalismo é uma profissão difícil, principalmente para quem, como eu, já tem mais de 40 anos, idade em que os copidesques começam a beber além da medida. Ou para uma mulher: hoje, oxigenada e meio bêbada, Arlete escrevia, a meu lado, uma matéria sobre um menino, filho adotivo, que era torturado pela madrasta. Os vizinhos denunciaram os maustratos e a polícia foi lá. Os policiais entraram de sola, um deles deu um soco na cara da mulher e lhe arrancou um dente da frente. Penteei depois a matéria e fiz a legenda da foto em que a mulher aparecia para depor na delegacia, com o dente arrancado e a roupa suja de sangue.

— Merda! Porra! — exclamou Arlete, enquanto escrevia. Não agüento mais! Redação é ambiente poluído, faz muito mal à pele e à alma das mulheres. Vai espremendo a gente feito moenda, só deixa o bagaço. Uma hora dessas, ainda me mando.

Mas eu suspeito, Arlete, que você vai ficar. Morreremos ambos em combate, não haverá tréguas. Por mais que pense em ir embora, você não vai e nem eu. E, se for, mais cedo ou mais tarde acaba voltando. Aquele é nosso universo, nossa vida de circo, o espetáculo que tem de continuar. Chegamos àquela redação vindos de todas as partes do país, cada qual por um motivo: é a nossa Legião Estrangeira, de nenhuma outra maneira saberíamos viver.

— Você já se deu conta da complexidade daquela máquina? — me preguntou Maciel, de repente, um dia desses. — É como se escrevêssemos um livro por dia. O volume de cada edição de jornal é o volume de um livro. Bolado por nossas cabeças todas, pensando juntas.

Maciel veio do interior de Santa Catarina e teve vários empregos — foi balconista, vendedor de livros e até piloto de carros de corrida, antes de se tornar repórter. Agora, trabalha nisso há dez anos e tem uma filosofia própia:

— Eu não esquento, sabe como é? Preciso só descobrir exatamente a quem perguntar as  coisas. Quero dizer, as pessoas que, realmente, podem dar informações. Não adianta sair correndo de um lado para outro, é preciso manter a calma. Aliás, os fatos se repetem e todos os presuntos se parecem. Incêndios, acidentes de trânsito, assaltos, não há muita varição. A gente já sabe que procedimento adotar, em cada caso. Falamos com uma testemunha, com o dono do estabelecimento, com o motorista etc.

No começo, pensei que o melhor repórter fosse González, talvez por ser argentino e ter um físico imponente alto, forte, bronzeado, cabelos grisalhos. Mas o pessoal comentou que ele é apenas um repórter quente, capaz, por exemplo, de se disfarçar de motoqueiro e se meter no meio de um grupo de traficantes de tóxicos para levantar os dados de uma matéria. E que talvez o melhor seja Renato, que tem pai espanhol, basco, e mãe calabresa, mas nasceu em Alagoas sua cara e o sotaque são mais de alagoano; e ele fala muito de política.

Agora, sei cada vez menos das coisas — diz. — Ando meio confuso. Ainda me admitem num grupo de esquerda, mas sou considerado moderado. Tive muitas decepçoes.

Decepçoes todos temos, Renato, os sonhos que não se cumprem, ou não realizamos. O meu era escrever um romance-reportagem sobre Copacabana. Há uns dez anos, redigi o primeiro parágrafo, ainda sei de cor:

“Não há crepúsculos dramáticos em Copacabana. A luz se torna menos intensa, mais difusa, abranda-se suavemente ao longo da praia, confundida com a branca poeira de salitre. E, enquanto a escuridão desce, turva e macia, a linha dos prédios vai perdendo o colorido e as mil janelas se tranformam em quadradinhos iluminados, cada vez mais numerosos.”

Copacabana, o sonho de todo jovem do interior, enfim realizado. O retângulo de céu amuralhado, sem estrelas, que descortino agora da minha janela. O guincho de um milhão de pneus é minha música, meu perfume, a agridoce fumaça dos canos de descarga dos automóveis.

“Há uma oculta ameaça na noite de Copacabana, como se um olho gigantesco se formasse nas trevas, um grande olho maléfico e úmido que a voz de Maria Bethânia alimenta, seu grito rouco”, escrevi, em seguida.

Eu queria contar a história do bairro, falar da Prado Júnior, do Beco da Fome, das boates eróticas, a pizza e o chope, o cooper na praia, de manhã cedo, a festa de Iemanjá e os bares do Calçadão. E recolheria depoimentos — uma strip-teaser, o dono de uma lanchonete, uma balconista de boutique. Além de uma mulher no início da casa dos 40, queimada de praia, os cabelos pintados de acaju, passeando na calçada com seu cachorrinho pequinês ou poodle-toy.

Copacabana, uma imponente preparação para as ruínas do ano 3000, quando será tombada como monumento ao kitsch. Copacabana invadida pelos ratos, Copacabana evacuada, depois de uma epidemia de peste. Uma grande tempestade, com raios e trovões, provoca um diúvio em Copacabana. A água se eleva acima do décimo segundo andar de todos os prédios e até os grandes hotéis emergem, como torres semi-submersas. Um raio deixa em chamas a cobertura do Hotel Othon.

Minhas duas irmãs, catoliconas lá do interior da Bahia, estranharam eu não me casar. E acham que, com a vida que levo, fui perdendo os sentimentos considerados por todos “humanos e normais”. Tolice, tudo tolice. Um saco, a gente se ligar para sempre com outra pessoa, ter de agüentar convívio forçado. Não tem nada mais antinatural que o casamento. Minha família verdadeira mora naquela enfumaçado salão de redação, em que as rosas fenecem.

Billie Holiday se cala, desligo a radiola, meu uísque acabou mas não me sirvo de outro. Vou tentar dormir, embora suspeite que, mais uma vez, acordarei assustado, àquela mesma hora, pouco antes de amanhecer; a Hora do Lobo. Quando, para os que sabem ouvir, soa o altíssimo e silencioso som do Carrilhão dos Loucos.

Parece que só eu, naquela redação, não fui para a cama com Josete. Me viciei com a Carla, que tem na frente alguns apêndices a mais — é a estrela dos shows de travesti da Galeria Alasca. Mas me consolo pensando que Josete, é claro, era fria. Vítima coletiva, criança mil vezes rejeitada, objeto sagrado para todos manipularem ou ingerirem, sangue de Deus, bilhete para a Ressurreição.

Impossibilitada de sentir prazer, Josete buscava inutilmente, em cada contato, uma ternura sempre ausente. Matou-se por sua frigidez, não conseguia mais ir para a cama com o repetido pai rejeitador, que levara sua mãe à morte. Com seu telefonema, Cigarrinho deu a martelada final, a estátua de repente ficou pronta, Josete está morta.

         E invade agora, de repente, a sala deste apartamentinho deserto e sujo, estende o imenso corpo fluido e ocupa o espaço inteiro, seus pés estão saindo pela janela. Com os ruivos cabelos, como os de sua sósia, Ann Margret, a flutuarem pelo espaço, espalhando o cheiro adocicado de cigarro e chumbo de oficina, que se impregnam para sempre em todos nós. Os jeans estão manchados de terra, mas a blusa colante e transparente continua limpa, deixando ver os seus seios infantis, quase inexistentes. Que eu, numa carícia inteiramente assexuada, toco.

Sonia Coutinho

Award-winning novelist and short-story writer Sonia Coutinho has been hailed at home and abroad as one of the most innovative authors in contemporary Brazil. Coutinho’s fiction focuses on middle-class female protagonists and their struggle to achieve independence and self-fulfillment, including professional, psychological, and sexual realization. This story was originally published in O último verão de Copacabana by 7 Letras editora in 1985 and has been reprinted with the permission of the author and the publisher.